terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A minha "descrítica"

AVISOS:
1. é provável que esse texto se alongue, portanto, se você está com pressa sugiro que deixe para outro dia a leitura ou não leia. Motivo: para economizar publicações no blog vou fazer uma miscelânea e comentar várias coisas que queria numa única postagem. Desse modo, nesse texto vou falar tanto sobre filmes quanto sobre críticas. Mais especificamente, vou perder mais tempo comentando Harry Potter e as relíquias da morte - parte 1 e sua crítica pelo blog http://descritica.blogspot.com/ (além de outras críticas a outros filmes nesse mesmo blog).
2. é provável que algumas coisas sobre o enredo dos filmes sejam ditas (isso que tem um nome em inglês que eu nunca lembro), no caso de Harry Potter, no entanto, isso não deve ser um problema porque todo mundo leu os livros. Se você é uma das pessoas que não leu, sugiro que leia.
3. chega.

Para começar, tem alguma coisa muito estranha com os filmes da série Harry Potter. Se retomarmos os livros não é difícil perceber que no 5º e no 6º (para mim, o melhor) mais importante do que o que acontece é o clima que se cria na narrativa (não quer dizer que a morte do Sirius, a do Dumbledore, etc não tenha importância). Explico: Todo o 5º livro se centra na tensão (e num jogo de aproximação e distaciamento) entre Harry e Voldemort que se dá justamente pela possibilidade do Dark Lord ter acesso à mente de Harry, etc. etc. Nessa, digamos, frente narrativa (que é a principal) está, na minha opinião, justamente o maior problema do livro: tudo concorre para a condução de Harry ao Ministério da Magia e a tentativa de fazer ele pegar a profecia para Voldemort (sendo que, aparentemente, o próprio Voldemort poderia ter feito isso). A outra frente narrativa se centra no enfretamento entre o Ministério e Dumbledore, principalmente com a inserção da Umbridge em Hogwarts. Isso, como prenuncia a Hermione no 5º filme deveria ser um elemento de tensão, mas o filme leva isso nas tintas, preferindo se ater ao lado cômico da Umbridge e das suas ações, quando, na verdade, poderíamos ter uma espécie de prenúncio do que seria o clima no 7º livro, ou seja, uma situação em que as liberdades individuais são cerceadas de tal modo que a insurreição dos oprimidos é uma conseqüência óbvia (como Rony diz ao Harry quando ele tenta sair da Toca para evitar que outros sejam mortos em seu lugar, a questão não é apenas proteger o Harry porque ele é uma criança - ou um adolescente - ou porque ele é um amigo, mas derrotar Voldemort). Nesse sentido, na comparação com o livro a ausência do quadribol no 5º filme é quase que imperdoável, porque, na minha opinião, é lá que temos o estopim da revolta. Ou seja, nesse filme um dos elementos fundamentais deveria ser, na minha opinião, a exploração dessas tensões, mas tudo se centrou no primeiro beijo do Harry e na Umbridge como uma piada... Perdendo, inclusive, boa parte da problemática Harry/Snape que se estabelece nas sessões de oclumência (e que são fundamentais no 6º e no 7º livro). No 6º livro, mais ainda, a construção do clima é fundamental e é dada, por um lado, pelas memórias coletadas por Dumbledore sobre Voldemort (que constroem um vilão muitíssimo interessante sob diversos vieses) e, por outro, pela inserção do Slughorn e de sua relação com Potter (e sua mãe) e com Voldemort. Ou seja, todo o 6º livro é sobre Voldemort, mas ele quase não aparece no filme, as memórias de Dumbledore são reduzidas a uma ou duas... O filme se centra novamente nas intrigas amorosas (que são interessantes) e na ação, principalmente com a ida à Caverna e coisa e tal... (até pode ser que esse pouco destaque dado ao Voldemort no 6º filme atenue o desnível entre o que se mostra do Dark Lord no 6º livro em que ele se apresenta, digamos, como um vilão respeitável (por suas habilidades) e o 7º livro em que ele é em termos práticos um palerma cuja presença só se faz necessária para o Harry matá-lo. Voltando ao filme, ele, de fato, é simpático (se compararmos com o 5º é uma obra-prima hehehehe). Tudo isso para dizer que me surpreendeu no 7º filme a ênfase no relacionamento entre os personagens e a falta de pressa (acho que essa é mesmo a palavra) em ir apresentando vários elementos que, no livro até são importantes, mas não ganham, na minha opinião, o mesmo destaque. Isso porque, para mim, o 7º livro (já faz um tempo que eu li) rola numa velocidade quase que alucinante, as coisas vão acontecendo e se sucedendo umas às outras num ritmo frenético. Talvez aqui faça sentido o que a Livia - no Descrítica - chama de "um estudo em sensibilidade". É claro que, nesse caso, ela mesma se contradiz ao dar uma importância que não tem no filme - pelo menos não nessa parte - ao "poder do amor". É no mínimo complicado você chamar de insensível um filme que faz uma “apologia do amor” como a que ela parece ter lido no Harry Potter. Tendo em vista a velocidade do livro, era de se esperar que nesse um filme as coisas simplesmente acontecessem porque no livro é mais ou menos assim, mas não, eles deram uma respirada que contribuiu, na minha visão, para uma melhora desse filme em relação aos outros. O banho de sangue ficou guardado para a parte 2.
Já falei o que queria sobre os filmes do Harry Potter, agora vamos à crítica da descrítica. Começando com um contra-senso: uma pessoa que lê Harry Potter efetivamente gostar da personagem chamada Harry Potter é algo do nível de uma pessoa que gosta de Cavaleiros do Zodíaco gostar do Seya (ou assistir Lost e gostar do Jack), ou seja, praticamente impossível. Ninguém (e se houver alguém, por favor, se manifeste) que leu e gostou gosta desses personagens. Continuando com esse raciocínio, é de se esperar que, de fato, a Hermione assuma as rédeas de qualquer situação envolvendo o Harry e o Rony porque ela é, sem sombra de dúvida, muito melhor como bruxo do que eles. Aliás, sou da opinião que um dos problemas dos filmes e dos livros é a insistência em se apegar ao Harry quando ele é o personagem mais chato (em todos os sentidos) da história. O fato da série chamar Harry Potter não deveria dar essa importância ao personagem (Dawson's Creek tem esse nome e a única personagem que aparece em todos os episódios é a Joey, que - diga-se de passagem - é filha de uma mulher chamada Lílian Potter, coincidência??).

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SÉRIE: EU IMPLICANDO COM AS PESSOAS:
1. o Snape matou o Dumbledore no 6º livro e não no 7º
2. Quer saber a intenção do escritor pergunte a ele, mas isso não faz muita diferença no final das contas, ou você é uma daquelas pessoas que deixam a sua leitura ser influenciada pela dos outros?
3. Você realmente acha que o sétimo livro é pior que os outros em termos de escrita, de narrativa? Sério? Você leu os 3 primeiros?
4. "Pq em que universo você passa capítulos e mais capítulos com os três personagens principais em uma cabana, acampando e não fazendo nada exceto se tornando pessoas odiosas que vc quer ver sofrer de forma lenta e gradual?". Sério? Você realmente lê alguma coisa? Você já leu Madame Bovary? Posso citar para você pelo menos cinco ou seis estudiosos de literatura que afirmam que, a partir de dado momento (séc. XIX), há uma tendência que se acentua nos textos literários de esfacelar a narrativa centrada em acontecimentos a favor da construção de textos em que a ação tem pouca ou nenhuma importância. Dica: Tchecov.
5. Verdade que só no 7º livro você percebeu que o Harry é um imbecil? Sério? Você não leu os outros? Mais importante: você não leu o 5º? Leia! Lá você vai encontrar Harry Potter no esplendor de sua burrice. Até que no 7º ele fica mais inteligente.
6. O nó da narrativa é o Harry descobrir que o Dumbledore ocultou informações (ou mesmo mentiu) para ele? Olha o Arnaldo tendo um infarto!!! Se eu não me engano, o nó é aquela situação que causa determinado desequilíbrio que deve ser reparado. É sobre isso o sétimo livro? Porque se for o desfecho deveria ser o Harry descobrindo a verdade sobre o Dumbledore. É isso que é fundamental no sétimo livro??? A morte do Voldemort e a destruição das horcrux deve ter sido um acidente então.
7. "Me senti pessoalmente ofendida que foram necessários sete volumes para Harry ganhar do Voldemort com o p***** do poder do amor. De repente me senti dentro de um episódio de Barney, o dinossauro roxo, sobre a importância da amizade e do amor na vida das pessoas." Se eu não me engano, o Eco, em algum lugar do Apocalípticos e Integrados, fala que, muitas vezes, o problema não é o livro (ou o filme, ou o quadrinho, ou o que quer que seja), mas o leitor que se projeta neles. Se você ler qualquer livro procurando uma lição nele, você vai encontrar. No sétimo livro, pelo que eu me lembro, a questão do "poder de amor", de fato, é fundamental, mas aí eu coloco dois problemas na sua leitura: primeiro, um livro dar importância para o amor e a amizade é algo negativo?; segundo, eu não lembro ao certo como é no livro se eles explicam certinho como que funciona esse "poder do amor" que salva o Harry da morte e ajuda a matar o Voldemort, imagino que eles expliquem porque, de fato, é meio confuso - estou me referindo ao confronto final entre Harry e o Dark Lord - e porque a J. K. Rowling gosta de explicar as coisas, mas esse, eu acho, é um momento que precisa ser explicado e só nesse momento, pelo que eu lembro, no 7º livro surge esse papo aí (se é que surge mesmo)... Apesar de ele estar presente em praticamente todos os livros e filmes (talvez não no 6º)...
8. O Voldemort não é, nem a pau, o maior bruxo de todos os tempos. Talvez o mais temido... Se eu tivesse que escolher, meu voto é: Snape.
9. Um problema que já tinha notado quando comentei a crítica sobre o Homem de Ferro 2: a predisposição em criticar, muitas vezes, leva quem critica a deturpar o que de fato acontece no objeto criticado. Sendo assim, deve-se destacar que não é a Hermione que acha o túmulo dos pais do Harry (mas, o próprio Harry), assim como não é ela quem vê as iniciais do irmão do Sirius na porta do quarto (é o Rony). Acho muito triste essa implicância com a Hermione porque a importância que, principalmente, ela e o Rony têm nos filmes (e nos livros) é um elemento quase que de verossimilhança, pois não era possível que um imbecil como o Harry fosse o herói sozinho, sem ajuda. Nesse sentido, talvez, seja interessante um paralelo com o que Tolkien falava sobre o herói em O Senhor dos Anéis. Para ele, se há um herói ele não é o Frodo, mas o Sam. E o Frodo não é, de modo algum, tão burro e incapacitado como o Harry.
10. Cansei.

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Uma coisa que sempre me chamou a atenção no http://descritica.blogspot.com/ é a escolha dos filmes comentados. Isso porque, pelo que eu me lembro da leitura desse blog, todos eles (ou quase todos) se enquadrariam no que a própria autora, provavelmente, chamaria de "filmes pipoca" (definição dela mesmo numa conversa no blog da Mirane - vide http://salaodofogo.blogspot.com/2010/05/homem-de-ferro-2.html). Foi então com grata surpresa que me deparei com o texto sobre alguns filmes do Kubrick (http://descritica.blogspot.com/2010/09/descritica-apresenta.html). Aí eu pensei, agora sim. Essa menina vai ganhar meu respeito (porque eu gosto do Kubrick, acho os filmes dele, digamos, simpáticos - para não perder o costume). Isso porque achei que ela ia fazer uma crítica, digamos, destrutiva aos filmes do Kubrick (um diretor consagrado pela crítica). Deve-se lembrar que o subtítulo ou a explicação do título do blog é "destruindo o cinema. um filme de cada vez". Em relação ao texto dela sobre os filmes do Kubrick eu até concordo com o comentário em relação à questão do tempo, mas se o Kubrick aborrece o que pensar então do Wenders ou do Antonioni. No mais uma implicação com o Tom Cruise e com a Nicole Kidman, de alguém que aparenta gostar do Leonardo DiCaprio. Aí, não. Mas o problema não é bem esse, a questão é, como diria eu mesmo, "bater em bêbado é facil". Qual é? Todo mundo está esperando que você bata no Harry Potter, no Crepúsculo, no Amar, Rezar e Comer (é esse o nome?) e seja educada e simpática com o Kubrick e com o Scorcese e com o Nolan. O que isso acrescenta? Pro A Origem não tem "roteiro" e pro Homem de Ferro 2 tem? Por quê? Porque alguém determinou que Crepúsculo não pode ser bom e que o Bergman não pode ser contestado. Só um pouco de ousadia, não muito. Só um pouco. É o que eu peço.
Esse é o problema do formato de crítica lá adotado, chamado de “descrítica”, mas que só "destrói" aquilo que os outros permitem que seja destruído. O Guilherme sempre ficava irritado que, quando ele ia ganhar uma argumentação comigo eu usava daquilo que ele chamava de "galhofa". Não perder a piada é importante, mas para alguém que (vide blog da Mirane) aprendeu sobre iluminação e roteiro e movimentos de câmera, etc. é suficiente? Eu uso a galhofa quando estou perdendo uma discussão, mas, o que se poderia ter perdido para esses filmes? Tempo? Ou seria vergonha de dizer que gosta? Porque no blog são mínimos os comentários sobre os filmes que você gosta em comparação com os que não. Tenho certeza que não falta criatividade para fazer um roteiro dos filmes do Woody Allen, do Coppola, do Wenders, do Scorcese, do Godard, do Fellini, etc. Por que, então, esses não ganham “roteiro”?


Abraço para todos.