sexta-feira, 27 de maio de 2011

Para quem gosta de John Ford

Segue abaixo texto de Glauber Rocha falando sobre o diretor:

O CACIQUE DA IRLANDA

Glauber Rocha
(O século no cinema. Cosac Naify, 2006, pp. 118-123)

Rock Demers, o ex-diretor do Festival de Montreal, conseguiu reunir John Ford e Jean Renoir e Fritz Lang.

Ford chegou com uma semana de atraso e com ele veio uma carga de mau humor. O grande diretor de westerns — tais como No tempo das diligências (Stagecoach, 1939), Sangue de herói (Fort Apache, 1948) ou Rastros de ódio (The Searchers, 1956) — é mais alto que Lang, mais velho, surdo e cego de um olho: como Lang, usa um dayan. Se Renoir é um leão manso, se Lang é um tigre ferido, John Ford é um avião agressivo. Inacessível à primeira vista, teve seu vedetismo desmistificado à entrada do hotel por Jean Renoir, que ao vê-lo gritou:

— Olá, Fritz!

O jornalista francês Michel Ciment advertiu Renoir que não se tratava de Lang, mas de Ford.

Renoir, sorrindo, respondeu:

— Sei disto. A confusão é proposital. Chamo Ford de Fritz apenas para brincar com sua vaidade.

John Ford avançou para um abraço caloroso em Renoir. No caminho, porém, quase cai. Está trôpego o comandante de pelotões, de manadas de búfalos, de tribos guerreiras. Tosse, mas não desiste do charuto. Enquanto brincava com Renoir, Michel Ciment aproveitou para me apresentar. Ford olhou para mim e berrou:

— Saudade!

Tomei um susto diante daquele folclórico "saudade" pronunciado com tanto desastre.

Ford hesitou alguns segundos e perguntou:

Where is Raul?

— Que Raul? — perguntei de volta.

— Roulien, Raul Roulien. Meu amigo e grande ator.

Dei as pouquíssimas informações que tenho sobre Raul Roulien e Ford resmungou:

— Rio de Janeiro...

Neste momento surgiu um padre. Ford interrompeu o discurso com Renoir e foi abraçar o padre. Conversaram alguns minutos. Depois Michel Ciment me disse que Ford estava preocupado, pois precisava arranjar um confessor durante o Festival: católico incorrigível, Ford vai à missa todos os dias.

Depois de muitos desencontros, realizou-se a entrevista com os jornalistas no quarto do hotel. Gim e uísque. Charutos. De roupa branca, sapato tênis, altíssimo, John Ford é o que se pode chamar de um "elegante grosso". Seus gestos são de um vaqueiro, embora seja irlandês. Parece que, depois de lidar tantos anos com cowboys, xerifes, índios e bandoleiros, Ford terminou influenciado por seus personagens.

Tem alguns tiques de John Wayne, grita quando menos se espera, parece que vai sacar uma pistola a cada gesto.

O Festival, para homenageá-lo, resolveu apresentar seu filme A mocidade de Lincoln (Young Mr. Lincoln, 1939) — biografia da juventude do patriarca americano.

Quando isto é anunciado, Ford estrila:

— Que filme? Young Mr. Lincoln? Não me lembro disto.

— Um filme com Henry Fonda, adverte Michel Ciment.

— Henry Fonda? Mas quem é Henry Fonda? — volta a perguntar Ford diante do espanto dos jornalistas.

Ford é um ranzinza. Como se sabe é católico, democrata, conservador, anticomunista ferrenho. Fonda é um progressista. Brigaram uma vez e esteve envolvido com John Wayne, amigo íntimo de

Ford e membro de organizações terroristas de direita.

Ford, a partir do incidente, resolveu ignorar Henry Fonda. Agora a lenda se confirma:

— Se este filme existe não quero vê-lo. Estou muito cansado e tenho problemas graves no momento. O que mais me aborrece é não estar bem de saúde para poder engajar-me na Marinha para a guerra no Vietnã.

Novo espanto. Ford confirma sua adesão à guerra e acrescenta:

— Estive visitando Howard Hawks enquanto ele filmava El Dorado (1967). Embora eu não veja os filmes de Hawks, visito-o sempre para um joguinho. Hawks me disse que vai fazer um filme sobre o Vietnã, que é uma guerra muito engraçada. Imagine nossos marines gigantescos e bem armados tendo dificuldades com aqueles "amarelinhos"... — e somente Ford sorri de sua piada inoportuna.

Silêncio.

Novas perguntas.

Sobre a arte cinematográfica:

— Só existe um autor no cinema: o banqueiro de Madison Avenue.

Atualmente eu não escolho nem os atores. É a mulher do banqueiro que dá todos os palpites no filme que vou fazer. Somente quando tenho dinheiro meu nos filmes possuo liberdade. Mas que liberdade? Quem manda é o público. Se eu faço um filme diferente do gosto do público é um fracasso, e com milhões de dólares não se brinca. O progresso no cinema é só um: o técnico. Eu fui um dos criadores do cinemascope, da panavision, do cinerama. Eu e outros colegas.

Sobre os novos cineastas:

— Quem é Godard? Nunca ouvi falar dele. Quem é Pasolini? Nunca ouvi falar. Ontem fui ver um filme comunista iugoslavo [trata-se de Une Affaire de Cœur, de Dusan Makavejev, aplaudido pela crítica] e saí na metade. Isso é lá cinema? Os europeus pensam que filmar uma mulher nua é cinema. O grande cinema é o nosso, o meu, o de Hawks, o de Hitchcock!

A petulância do velho constrange a todos.

Um jornalista arrisca:

— Vai continuar filmando?

— Tenho mais de oitenta anos mas ainda não estou tão velho para parar. Agora mesmo pretendo fazer outro filme e tenho comigo vários scripts. Tenho novas atrizes para lançar e compromissos comerciais.

Subitamente o gavião pousa. Bebe um gole de gim, traga o charuto. Está afastado, talvez vagando entre os canyons onde costuma filmar emboscada de índios. Murmura:

— Tenho de voltar. Minha mulher e minha filha estão doentes.

Um jornalista pergunta se Ford acompanhará Renoir naquela noite ao Palácio do festival, onde será apresentado La Marseillaise (A Marselhesa, 1938).

Ford resmunga:

— Não. Este filme sobre a Revolução Francesa é propaganda. Não posso prestigiar um comunista em público, apesar de Renoir ser meu amigo.

Três dias depois Rock Demers envia um Buick de luxo para trazer John Ford ao cinema onde será apresentado Young Mr. Lincoln, e o cacique protesta:

— Carros de luxo é para o Fritz, que é um vaidoso. Eu posso ir de táxi.

Mas vai no Buick. O mesmo traje. Quando chega ao cinema repleto, ovação. Ergue os braços e pede silêncio. Emocionado, Ford grita com sotaque de cowboy:

— Nestes momentos sempre dizemos: "eis o momento mais importante de nossa vida"... Este é um filme simples sobre um homem simples filmado há mais de vinte e cinco anos e eu não me lembro nem de uma cena. Os atores são desconhecidos.

Young Mr. Lincoln começa. É um filme que entusiasmou Eisenstein. Contamos isso para Ford e ele brinca:

— Quem? Eisenstein? O diretor comunista de Ivan, o Terrível? Ivan é um filme muito inteligente.

Young Mr. Lincoln, com Henry Fonda num dos maiores papéis de sua carreira, é um retrato nacionalista e nada crítico da juventude predestinada de Abraham Lincoln. Ali já estão os dados do estilo fordiano: senso de humor, harmonia visual, folclore do interior norte-americano, humanismo, religião, sentimentalismo. O mesmo Henry Fonda reapareceria em Paixão de fortes (My Darling Clementine, 1946), As vinhas da ira (The Grapes of Wrath, 1940), Mister Roberts (1955) e em outros vários filmes realizados pelo jovem irlandês que começou cedo a filmar bangue-bangue em Hollywood. Na pele do moço Lincoln, Fonda encarnava o americano ideal e idealista. Temos a impressão de que se trata de um documento primitivo. Quando termina, aplausos, não ao filme, mas a Ford. Ele se levanta e projeta a sua vaidade de bom moço:

— Realmente vocês têm razão em bater palmas. É um belíssimo filme.

Risos. O gigante tem lágrimas nos olhos. Raramente tivera homenagens como aquela. Na França, numa vez em que Ford lá esteve, o crítico Jean Mitry deu-lhe de presente um livro que era a biografia do próprio Ford. O velho ficou espantado. Homenagens deste tipo não existiam em Hollywood, onde ele era apenas um funcionário dos estúdios.

Ford desconfia de sua possível genialidade. Inegavelmente militarista, Ford idealizou o Oeste como um paraíso perdido, espécie de Olimpo do novo mundo. Sua preocupação sempre foi a de punir os maus e fazer triunfar os bons. Gosta de índios, mas são ingênuos os selvagens que devem ser catequizados e protegidos. Haverá sempre um bom soldado branco capaz desta façanha, ainda que para tanto deva se rebelar contra seu superior. O exército é a alma da nação, a cavalaria sempre surgirá para salvar os pobres colonos das garras dos índios. Sobre racismo, Ford acha lamentável a incompreensão entre os homens.

Seu cinema criou adeptos em todo o mundo. Na França Ford é adorado, embora todos saibam que sua visão do mundo é desatualizada, principalmente depois que os Estados Unidos começaram a entrar em crise social, econômica e política revelando ao mundo que sua invencibilidade apregoada com veemência pelo cinema é um mito cinematográfico. Como Howard Hawks, como Alfred Hitchcock, como tantos outros, Ford pertence a uma geração de gigantes que se revelam como Golias, vulneráveis na testa.

Fritz Lang tinha razão quando afirmava que o cinema feito por esta geração era um cinema primitivo. Inventaram cenas fabulosas de espetáculo, criaram gêneros e heróis, mas em nada contribuíram para transformar a sociedade: apenas colaboraram na edificação do mito imperialista. Este cinema de espetáculo, de aventura, de suspense, de emoção, entrou em colapso justamente porque o tempo da reflexão, da dúvida, da crítica, da perplexidade, começou. Hoje, diante de um filme do velho cinema americano, vemos apenas a reprodução mentirosa do mundo. E a perfeição destas formas, a harmonia deste ritmo, terminam por cansar. É um mundo fechado que dá uma mensagem mastigada ao espectador, sem que ele tenha a menor chance de discutir ou recusar.

John Ford é o maior criador desta fase. Moralista, telúrico, gênio de um velho estilo de espetáculo, Ford foi bem definido pelo cineasta português Paulo Rocha, à saída de Young Mr. Lincoln:

— É o último poeta arcaico de uma civilização eletrônica.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Lembranças...

Hoje lembrei da introdução do FIFA 06, o jogo da minha adolescência... Lembro que, às vezes, ficava arrepiado só de ver (ainda fico)... Muito bem feito, pelo menos eu gosto. Excetuando o finalzinho com a referência ao Ronaldinho e ao Rooney (não gosto de nenhum dos dois).



O texto em inglês

“Game after game after game, I realize now what’s most important in my life: Football. Show me something more thrilling than a perfect volley; tell me you’ve never dreamed of the immaculate strike and that passionate moment when an entire nation holds it breath. Tell me that football is not our one common language when the world stops for ninety minutes to be witness to that one thing that we all understand.

You could tell me I’m wrong; some may say it’s just a game, but this is about heroes and tribes, loyalties and devotion; it’s our commitment and our passion, our battle and our belief, this is our faith. Now, feel the fever of the crowd, hear the roar of the faithful…you are Ronaldinho, you are Wayne Rooney, this is the beautiful game, this is your moment.”

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Um poema simpático de Kipling

Segue abaixo o poema "The Conundrum of the Workshops" que é citado no filme F for fake de Orson Welles, nos dois (no filme e no poema) uma das questões importantes é o que é arte. Eu não conhecia o poema e achei legal, então segue abaixo:

The Conundrum of the Workshops

Rudyard Kipling

When the flush of a new-born sun fell first on Eden's green and gold,
Our father Adam sat under the Tree and scratched with a stick in the mould;
And the first rude sketch that the world had seen was joy to his mighty heart,
Till the Devil whispered behind the leaves, "It's pretty, but is it Art?"

Wherefore he called to his wife, and fled to fashion his work anew -
The first of his race who cared a fig for the first, most dread review;
And he left his lore to the use of his sons -- and that was a glorious gain
When the Devil chuckled "Is it Art?" in the ear of the branded Cain.

They fought and they talked in the North and the South, they talked and they fought in the West,
Till the waters rose on the pitiful land, and the poor Red Clay had rest -
Had rest till that dank blank-canvas dawn when the dove was preened to start,
And the Devil bubbled below the keel: "It's human, but is it Art?"

They builded a tower to shiver the sky and wrench the stars apart,
Till the Devil grunted behind the bricks: "It's striking, but is it Art?"
The stone was dropped at the quarry-side and the idle derrick swung,
While each man talked of the aims of Art, and each in an alien tongue.

The tale is as old as the Eden Tree - and new as the new-cut tooth -
For each man knows ere his lip-thatch grows he is master of Art and Truth;
And each man hears as the twilight nears, to the beat of his dying heart,
The Devil drum on the darkened pane: "You did it, but was it Art?"

We have learned to whittle the Eden Tree to the shape of a surplice-peg,
We have learned to bottle our parents twain in the yelk of an addled egg,
We know that the tail must wag the dog, for the horse is drawn by the cart;
But the Devil whoops, as he whooped of old: "It's clever, but is it Art?"

When the flicker of London sun falls faint on the Club-room's green and gold,
The sons of Adam sit them down and scratch with their pens in the mould -
They scratch with their pens in the mould of their graves, and the ink and the anguish start,
For the Devil mutters behind the leaves: "It's pretty, but is it Art?"

Now, if we could win to the Eden Tree where the Four Great Rivers flow,
And the Wreath of Eve is red on the turf as she left it long ago,
And if we could come when the sentry slept and softly scurry through,
By the favour of God we might know as much - as our father Adam knew!

p.s.: não achei nenhuma tradução, se alguém tiver por favor colabore (até porque minha leitura em inglês é menos do que precária). Outro detalhe, achei o texto na internet então pode ser que tenha algum problema...

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Nova "homenagem", essa um pouco diferente...

Trata-se da publicação de um texto de um amigo com quem aprendi bastante:

Do elitismo acadêmico na crítica literária.


Guilherme Mariano Martins da Silva

Recentemente tenho me questionado e questionado todo o meu círculo social e o próprio meio acadêmico em uma questão que me atormenta: o elitismo do meio acadêmico que se fecha em um círculo constante e inacessível de produção, ou melhor de reprodução. E o pior é que me vejo fadado a entrar neste círculo, por ascenção financeira e intelectual.
O problema deste círculo fechado é o pragmatismo autocrático com que se impõe ele. Devemos ler Machado de Assis, devemos ler Guimarães Rosa, devemos ler poetas sacros, devemos, em suma, estudar o cânone. Mas a pergunta que me atormenta continua. Para que devemos ler o cânone? E outra mais importante: Quem selecionou este canone?
Não estou questionando a qualidade do texto literário de Machado ou de Rosa, bom, de certa forma, estou sim. Mas com o propósito de questionar a seleção do cânone, de questionar esse círculo fechado que é o meio acadêmico. Pois me sinto perdido dentro deste círculo, me sinto perdido dentro dum mundo fechado para o mundo real. O mundo acadêmico não é utópico, mas é idealizado.
Não é utópico na medida em que não se concilia entre si, na medida em que tem seus próprios conflitos internos, sendo completamente fragmentado em subdivisões de metodologias. Mas é idealizado no sentido em que se ignoram a problemática dessa fragmentação e mais idealizado ainda quando se ignoram as primeiras questões feitas no começo deste texto. Estas questões nos remetem a outra questão: Qual a função da crítica literária? E quando penso nisto quase me vejo desempregado.
Eu me perguntava estas questões já a algum tempo e me via cada vez mais perdido até me deparar com a leitura da obra de Terry Eagleton para o meu projeto de mestrado. Em Literary Theory an Introduction, Eagleton faz exatamente estas considerações na sua conclusão e graças a estas estranhas coincidências que me cercam eu percebo que não estou sozinho em meus questionamentos, além de não ser nem original ou brilhante.
Entretanto o mais importante é ressaltar as conclusões de Eagleton, que me elucidaram em muito e que me deixaram em dúvida também. Quando eu digo que o mundo acadêmico da crítica literária é um mundo idealizado, fechado em um círculo vicioso eu digo pois ele é um ideal de crítica que não se realiza no plano material, mas que funciona como uma ilusão, uma quimera que reenforça a super estrutura do elitismo liberal. Eagleton diz exatamente isto, o meio acadêmico, a crítica literária, são ilusórios, são reprodutores de ideologias de controle, querendo eles ou não, sabendo ou não, é isto que o são. E isto nos leva as primeiras perguntas, quem seleciona o cânone? É uma pergunta complicada, pois o cânone já nos veio outorgado por gerações passadas e, embora ele tenha sido revisto e aumentado, pouca coisa mudou. O cânone me parecia quando estava no 1 ano de Letras algo como os 10 mandamentos, hoje posso dizer que a elite aristocrática que o selecionou em conjunto com a elite intelectual que o mantêm servem muito bem as suas ideologias. Não que a obra de Machado ou de Guimarães não sejam dignas, mas por que estudá-las continuamente, às vezes sem propósito além do exercício acadêmico, ao invés de se estudar Matrix ou Invincible? Ou mesmo, por que não estudamos Paulo Coelho? Independemente da qualidade de qualquer uma destas obras, fato é que todas elas são contemporâneas, produtos da nossa história atual, produtos da cultura de massa, voltados para a massa e enquanto a elite acadêmica reproduz um estudo da sensibilidade para uma minoria, abandona a massa aos cuidados de seleção da produção do mercado.
Quando faz isto, a elite acadêmica é nada mais do que uma ilusão do sistema e possui sua parcela de culpa na reificação das massas e no não acesso à cultura pela maioria da população. Possui outro tipo de culpa ainda, o de encarcerar em sua rede sistêmica o cânone e de usá-lo para reforçar essa ideologia liberal.
Felizmente para mim, me deparei com a conclusão de Eagleton, com sua ponderação acerca da morte da crítica literária, do ressurgimento da retórica, a mesma retórica do tempo de Sócrates, voltada para o mundo moderno. Pois segundo Eagleton, além de não se limitar no seu objeto de estudo como a crítica literária, sendo assim muito mais democrática, além de estudar o discurso do texto, enfocando as estruturas formadoras para se chegar as ideologias por trás do discurso analisado, além disto tudo, a retórica realiza estas ações com um objetivo claro, produzir e melhorar o próprio discurso do crítico, do analisador.
Ao final da leitura de Eagleton me senti muito mais tranqüilo qüanto ao meu futuro como crítico, não como crítico literário, mas como cidadão crítico capacitado em retórica e preparado para analisar discursos e depreender formas e ideologias. Quanto ao meu futuro acadêmico, entro nele não como crítico literário, mas como estudante e crítico da cultura e como tal não posso nunca me esquecer do que disse Walter Benjamin: "There is no document of culture wich is not also a record of barbarism." 1, ou nas palavras de Eagleton:
"Men and women do not live by culture alone, the vast majority of them throughout history have been deprived of the chance of living by it at all, and those who are fortunate enough to live by it now are able to do so because of the labour of those who do not.". 2
Notas:
"Não há um documento da cultura que não seja também um registro da barbárie." 1 (Tradução minha)
"Homens e mulheres não vivem somente para a cultura, a vasta maioria deles por toda a História tem sido privada da chance de viver mesmo um pouco para a cultura e aqueles que são afortunados o suficiente de viver para isto agora, só o podem por causa do trabalho daqueles que não podem." 2 (tradução minha).

Quer mais: http://tecladopesado.blogspot.com/

domingo, 16 de maio de 2010

Faroestes, os que mais gosto

Já que resolvi levar esse blog um pouco mais a sério tem algumas "homenagens" que não posso deixar de prestar... Como, provavelmente, falarei bastante de filmes aqui, vou fazer uma "lista" dos 10 + na minha opinião, é claro. Trata-se de uma "homenagem" porque foi com eles que eu aprendi a gostar de cinema (ah, só tenho 23 anos, então não assisti esses filmes, de fato, nos cinemas), ou seja, foi com John Wayne, Kirk Douglas, James Stewart, Clint Eastwood, Audie Murphy, Gregory Peck, Randolph Scott, Robert Mitchum, Richard Widmark, Burt Lancaster, Dan Duryea, Joel McCrea, Stephen McNelly, Lee Van Cleef, entre outros. Em grande parte, assistindo as sessões de bang bang da Record, depois da Tv Família, e da Band até que eu passei a ter acesso aos canais pagos... Aproveitando a deixa, em muito devo, então, ao meu pai, que adora westerns, e também ao tio Ieca que me deu várias dicas... Ia ser os 10 +, mas podem se tornar 11, 12, 13, sei lá, quantos eu precisar... Essa lista, inclusive, costuma estar em constante mudanças porque estou sempre a procura de novos faroestes... Ah, a ordem de gosto é algo que muda, um dia gosto mais de um, no outro gosto mais de outro...


1. O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA (The Man Who Shot Liberty Valance, 1962). Diretor: John Ford. Elenco: James Stewart, John Wayne, Lee Marvin, Vera Miles, Edmond O'Brien, Andy Devine, Jeanette Nolan, John Qualen, Woody Strode, Lee Van Cleef, Strother Martin, Denver Pyle.
Um filme excepcional do mestre dos faroestes (e do cinema como um todo) John Ford. É nesse filme que é dita a frase imortal: "When the legend becomes fact, print the legend" (mais ou menos: "Quando a lenda se torna fato, imprima a lenda"). Uma atuação impecável de James Stewart e de John Wayne. Uma curiosidade é que, apesar de o título do filme se referir ao seu personagem, o "protagonista" do filme é o personagem de Stewart, isso é curioso porque Wayne é famoso por ser o ator que mais atuou em filmes como protagonista, isso se torna ainda mais interessante devido ao fato de esse ser um de seus melhores filmes. Nesse sentido vale uma nota, apesar de reclamarem que ele "só faz um papel, o dele", nesse filme, assim como em boa parte dos bangue-bangues, esse "tipo" é importante. Aqui (como em outras obras), ele empresta ao filme não apenas a sua atuação, mas a sua "marca". Se se reclama que ele não era um grande ator por desempenhar sempre o mesmo tipo de personagem, não deve-se tirar o mérito de ele encarnar esse personagem de maneira inigualável.



2. ONDE COMEÇA O INFERNO (Rio Bravo, 1959). Diretor: Howard Hawks. Elenco: John Wayne, Dean Martin, Ricky Nelson, Angie Dickinson, Walter Brennan, Ward Bond, John Russell, Pedro Gonzalez, Estelita Rodriguez.
Segundo filme, segundo com o John Wayne. Esse filme tem uma porção de curiosidades que valem a pena ressaltar. A primeira: reza a lenda que esse filme foi feito como uma resposta a "Matar ou morrer" (High Noon, 1952) de Fred Zinemann, a se reparar, primeiro, a semelhança entre as duas histórias, em ambos os casos o xerife por fazer o que acha certo e não se render à pressões se coloca numa posição difícil. Se a situação é, a principio, parecida, o tratamento é diverso, enquanto no filme de Zinemann o xerife se vê sozinho, abandonado pela cidade que protegera quando foi preciso, no filme de Hawks, o xerife John T. tem problemas em manter seus amigos e a população fora do problema, preferindo cuidar ele mesmo (juntamente com seus ajudantes) do problema. Trata-se, é claro, também de um posicionamento político, principalmente porque Hawks (assim como Wayne) considerava o filme "Matar ou morrer" um filme "anti-patriótico", pois passava uma visão de uma sociedade americana acovardada, que não defendia na prática os princípios que brandava na teoria. Outra curiosidade é a questão da tradução do título que é, de fato, uma bagunça. Ao que parece, preferiu-se, no Brasil, traduzir o título do filme como "Onde começa o inferno" porque o nome "Rio Bravo" tinha sido dado a um filme de John Ford que se chamava "Rio Grande" e, para que não houvesse confusão, preferiu-se essa versão do título do filme (aliás, traduções de títulos de filmes estranhas, bizarras, etc. é o que não falta, algumas para bem outras para mal... Ex: Shane/Os brutos também amam [!?]). Já que falamos de John Ford de novo, acho proveitosa a aproximação desses dois diretores (amados pelos representantes da novelle vague) porque ambos representam um tipo de diretor: os contadores de histórias. Eles sabiam como ninguém apresentar uma narrativa para seus expectadores, no meu ponto de vista, são poucos que ainda fazem isso: talvez o Eastwood ou o Tim Burton... a se ver mais... A minha última curiosidade diz respeito a outros dois filmes, ambos dirigidos por Hawks e estrelados por Wayne que podem ser vistos como variantes desta história: Eldorado e Rio Lobo. Isso parece mostrar a força que Hawks achava que tinha essa história, no que concordo com ele, Eldorado conta com Robert Mitchum no elenco... não vai constar nesta lista de aproximadamente 10, mas vale a pena conferir. Quanto a Rio Lobo, sou apaixonado pela música que toca enquanto passam os créditos no inicio do filme...



3. TERRA BRUTA (Two Rode Together, 1961). Diretor: John Ford. Elenco: James Stewart, Richard Widmark, Shirley Jones, Linda Cristal, Andy Devine, John McIntire, Mae Marsh, Anna Lee, Harry Carey Jr., Woody Strode.
Mais um filme de John Ford e o último desta lista (deixo de fora os dois que são considerados, em termos de faroeste os principais: Rastros de Ódio/The searchers (1956) e No tempo das diligências/Stagecoach (1939)). Quem conhece sabe que esse filme é, em certo sentido, muito parecido com Rastros de Ódio, pois, assim como aquele, conta a história de um "resgate" de brancos seqüestrados pelos índios. Os dois filmes possuem, no entanto, tons muito diferentes, enquanto o filme de 1956 se marca por uma forte seriedade e lirismo, o filme de 1961 é mais sarcástico-irônico, de um humor cortante, quase visceral. O primeiro é estrelado por Wayne, enquanto este tem como ator principal James Stewart. Ambos os personagens são homens duros, secos, que expressam um certo desencantamento com o mundo, mas se no filme mais famoso é marcado pela raiva que o protagonista sente pelos peles-vermelhas e que, aparentemente, se transfere à sua sobrinha seqüestrada, no seu "primo pobre" o personagem de James Stewart é um cínico que procura se aproveitar financeiramente da situação das famílias que tiveram seus parentes tomados de si. Alguns dos diálogos (bem como a amizade) entre o personagem de Stewart e Widmark tem momentos antológicos... a interpretação de Stewart, para variar, é notável.



4. BALAS QUE NÃO ERRAM (No name on the bullet, 1959). Diretor: Jack Arnold. Elenco: Audie Murphy, Charles Drake, Joan Evans, Virginia Grey, Warren Stevens, R.G. Armstrong, Willis Bouchey, Edgar Stehli, Simon Scott, Karl Swenson.
A história é bem simples: famoso matador profissional (Murphy) chega a uma pequena cidade. O xerife, mesmo sabendo que ele matou muitos, não pode prendê-lo porque não há um mandato de prisão para ele. Motivo: ele faz com que aqueles que ele é pago para matar saquem primeiro, logo, mata por legítima defesa. A população se põe em polvorosa, tentando advinhar de quem ele está atrás, muitos entram em pânico, pensando que são o seu alvo. Um exemplo de filme B muito bem realizado, Jack Arnold - mais conhecido por seus filmes de terror, alguns deles são considerados cults (O monstro da Lagoa Negra, 1954, por exemplo) - consegue criar um forte clima de tensão entre os personagens. A se destacar a contraposição entre o médico e o assassino, um dos elementos marcantes do filme, bem como a maneira como ele transgride as noções de mocinho e bandido, comuns nesse gênero.


5. O RIO DAS ALMAS PERDIDAS (River of no return, 1954). Diretor: Otto Preminger. Elenco: Robert Mitchum, Marilyn Monroe, Douglas Spencer, Rory Callhoun, Tommy Rettig, Murvyn Vye, Claire Andre, Don Beddoe.
Esse é um filme um pouco diferente dos outros. A história é a seguinte: um fazendeiro que vive com o filho às margens de um rio ajuda um casal a sair de um balsa na qual eles viajavam em busca de chegar a Carson City. Ao perceber que a viagem de balsa seria praticamente impossível o homem rouba o cavalo e o rifle do fazendeiro, deixando ele, seu filho e sua namorada à mercê dos índios. O fazendeiro para fugir dos índios e em busca de vingança tenta fazer com o filho e a namorada do outro o percurso até a cidade de balsa... Se o cenário não fosse prototípico do western, poderia dizer-se que se trata de um filme de aventura nas corredeiras do rio. Destacam-se algumas imagens particularmente bonitas, em especial, a do começo do filme e as que se passam no rio. O diretor Preminger (conhecido por filmes como Laura, 1944, e Anatomia de um crime, 1959) não é um especialista em faroestes, mas constrói um filme sólido e marcante para o qual contribuem as interpretações de Mitchum e Monroe (um dos filmes em que ela está mais bonita, apesar de que o figurino e a sua dança nas cenas do saloon não ajudam muito).


6. CONSCIÊNCIAS MORTAS (The ox-bow incident, 1943). Diretor: William A. Wellman. Elenco: Henry Fonda, Dana Andrews, Mary Beth Hughes, Harry Davenport, Anthony Quinn, William Eythe, Harry Morgan, Jane Darwell, Matt Briggs, Frank Conroy.
Um filme "sencillo" e tocante que se coloca quase como um manifesto contra a barbárie do linchamento. Conta a história de um homem que chega a uma cidadezinha e tenta impedir que a população enforque um homem que teria cometido um assassinato. Henry Fonda interpreta o homem que tenta impedir o linchamento num papel que parece ter sido feito para ele (Fonda participou de outros faroestes importantes como: My Darling Clementine/Paixão dos Fortes, de John Ford, e Era uma vez no Oeste/Once upon a time in Oeste, de Sergio Leone). Trata-se de um filme bastante curto, apenas 74 minutos, mas que não tem uma frase, uma tomada que não seja essencial. Destacam-se os diálogos que constroem a tensão dramática do filme e o fim que coroa toda a produção.


7. OS IMPERDOÁVEIS (Unforgiven, 1992). Diretor: Clint Eastwood. Elenco: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris, Jaimz Woolvett, Saul Rubinek, Frances Fisher, Anna Levine, Rob Campbell.
Clint Eastwood parece ter conseguido nesse filme fazer uma espécie de síntese entre o faroeste mais tradicional e o spaghetti western, numa fusão de violência e lirismo como poucas vezes se viu na história desse gênero e do cinema como um todo. Embora o filme ainda esteja fortemente ligado a um posicionamento "revisionista", ou seja, que faz uma releitura da vida do Oeste e de suas lendas, demonstrando toda a violência, a impunidade, que muitos filmes "jogam para baixo do tapete", nota-se que ele consegue se desgarrar bastante do estilo spaghetthi em que, às vezes, a história era deixada de lado para a explosão da violência, do grotesco, do "baixo". Um filme maravilhoso e com uma trilha sonora perfeita.


8. NA TRILHA DOS PROSCRITOS (Ride a Crooked Trail, 1958). Diretor: Jesse Hibbs. Elenco: Audie Murphy, Gia Scala, Henry Silva, Walter Matthau.
Homem (Audie Murphy) mata xerife famoso e chega a uma cidade em que o juiz (Walter Matthau) é também o xerife e com mão de ferro mantém a paz na cidade, seu lema é: atirar primeiro, perguntar depois. Nesse cidade, o personagem de Audie Murphy por ter roubado a estrela do xerife que matou é confundido com ele e é nomeado xerife daquele lugar. As coisas se complicam quando a quadrilha de que ele fazia parte chega à cidade e quer a ajuda dele para assaltar o banco. Mais um filme B com momentos engraçadíssimos... A atuação de Walter Matthau como o juiz bêbado é espetacular...


9. A MORTE NÃO MANDA RECADO (The Ballad of Cable Hogue, 1970). Diretor: Sam Peckinpah. Elenco: Jason Robards, Stella Stevens, David Warner, L.Q. Jones, Strother Martin, Slim Pickens, R.G. Armstrong, Gene Evans, Peter Whitney, William Mims.
Peckinpah talvez seja um dos mais viscerais diretores de faroestes. Seus filmes (Meu sangue será sua herança, Juramento de vinganças, por exemplo) são bastante violentos, abordando os tipos miseráveis, sujos, de "mau caráter", etc. Nesse sentido, as suas obras dialogam com os spaghetti westerns (e são o mais próximo que esses filmes chegarão da lista hehehe). Por outro lado, boa parte de seus filmes foram realizados num período (decadas de 60 e 70) em que o faroeste entra em declínio, e, em certo sentido, os seus filmes são sobre o declínio do próprio Oeste com a chegada da modernização e da "civilização". Nesse filme se percebe como a modernidade atropela o estilo de vida do Antigo Oeste essa já havia sido o tema de um dos mais importantes filmes de Peckinpah: Pistoleiros do Entardecer (1962).



10. HOMEM SEM RUMO (Man without a star, 1955). Diretor: King Vidor. Elenco: Kirk Douglas, Jeanne Crain, Claire Trevor, Richard Boone, Jay C. Flippen, William Campbell, Myrna Hansen, Mara Corday, Eddy Waller, Sheb Wooley.
Não podia deixar a lista sem um filme do Kirk Douglas, estava entre este filme, Sem lei e sem alma, O último pôr do sol (que tem a cena antológica em que o personagem de Douglas vai para o duelo sem carregar a arma), Duelo de Titãs, escolhi este (o triste é que entre os 10 não há nenhum sobre o duelo no Curral OK). O título em português perde uma duplicidade que há no título em inglês o "sem estrela" pode ser entendido tanto no sentido de "sem rumo, sem um norte" como "não é um xerife", mas ele acaba fazendo o papel de um. Mais um filme que mostra o "desastre" que o progresso, simbolizado pela cerca de arame farpado, traz ao modo de vida do Oeste.


Vou encerrar a lista com esses 10, mas segue abaixo sugestões de filmes para se assistir. Praticamente todos poderiam ter lugar nessa lista: E o sangue semeou a terra, Da terra nascem os homens, Atire a primeira pedra, O último pistoleiro, Ardida como pimenta, Comando Negro, Eldorado, Rastros de Ódio, No tempo das diligências, Sem lei e sem alma, Um pecado em cada alma, Onde impera a traição, Meu sangue será sua herança, Josey Walles, Paixão dos fortes, Pistoleiros do entardecer, etc.

ALGUNS FILMES CONSIDERADOS CLÁSSICOS DO GÊNERO, MAS QUE EU NÃO GOSTO MUITO:

MATAR OU MORRER
ERA UMA VEZ NO OESTE
TRÊS HOMENS EM CONFLITO
DANÇA COM LOBOS
RIO VERMELHO
OS BRUTOS TAMBÉM AMAM

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Dormideira

.................................................... para Mirane

resplandece intocável sobre o sol
joga beleza e força para o ar
retesa se lhe jogam anzol
encolhe e parece encabrunhar
quando se aproximam, sem vagar,
suas folhas fecham, qual livro que não
mostra suas fontes, qual pedra que água
não permeia, qual quimera sem belerofonte

e sozinha e sozinha quer estar
pra matar a solidão que acompanha
e cada folha em tristeza medonha
quer dormir e estar no belo reino
onde acordar é como um espelho
onde só se mostram maravilhas
onde ressurgem os contadores mortos
que não morrem, recolhem suas pétalas